Se consultamos os antigos e modernos dicionários da língua Portuguesa verificaremos que a palavra calão pode significar um linguajar rude, grosseiro com uso pejorativo, como pode ser entendido como linguagem criada por um grupo particular, um vocabulário próprio de um grupo determinado de pessoas. Este último significado é aquele que podemos atribuir ao chamado Calão de Moreira.
Era um falar usado pelos habitantes de Moreira, só por eles conhecido, para que, na presença de forasteiros (maneses d’alondres) pudessem comunicar livremente sem lhes dar a conhecer o teor da conversa. A época da sua invenção é desconhecida, mas, no princípio do século XX ainda era comum o uso de alguns dos seus termos entre os habitantes mais velhos. Não raro, ainda na nossa meninice, os nossos pais e avós quando conversavam sobre assuntos que não nos queriam revelar, articulavam as suas conversas empregando, aqui e além, termos do calão que nós não compreendíamos intrujiamos.
É lamentável que ninguém, nesse passado já longínquo, tenha feita uma recolha exaustiva de todos os vocábulos utilizados! É uma perda irreparável!
Quando o etnólogo Michel Giacometti se deslocou a Moreira no final da década de 60 ou já no início da década de 70, para recolher o que ainda restava, tendo reunido, em casa da minha avó Maria Guerreira um conjunto de pessoas mais velhas da terra, já era tarde, demasiado tarde! Já não eram essas a pessoas que podiam falar fluentemente o calão de Moreira. Recolheu o que havia, gravou umas velhas cantigas que a minha mãe recordava e que sua avó Carolina Pena lhe ensinara em criança.
A propósito do calão de Moreira, não posso deixar de contar um episódio que se passou comigo em 1971. Uma jovem que fora minha colega no Externato D. Dinis e que frequentava então o primeiro ano da Faculdade de Letras, deslocou-se a Moreira para fazer um trabalho sobre fonologia. Solicitou a minha ajuda para lhe apresentasse as pessoas mais velhas da terra com as quais pretendia falar. Uma das pessoas que lhe apresentei foi a Tia Etelvina que teria, à época, os seus setenta e poucos anos. A Tia Etelvina não conhecia uma letra! Era, até, a minha mãe quem lhe lia e escrevia as cartas do e para o marido, o Tio Francisco Rocha, mais conhecido por Tio Chico Maroto, emigrado, havia décadas, no Brasil. Ora a Tia Etelvina, depois de lhe ter apresentado a colega, vira-se para mim e interroga-me nestes termos: A petiza d’alondres que se calma aquimes alternar-se com soi? Eu sorri e respondi: Nente boi!
A Tia Etelvina que, tantas vezes nos acolhia à lareira da sua cozinha e, muito frequentemente, desatava o lenço das mãos para dele retirar e me oferecer uma moeda de alpaca de 10 tostões, movida por grande curiosidade, pretendia saber se a rapariga de fora que acompanhava o sobrinho neto era sua namorada! E, como não era minha namorada eu respondi negativamente: Nente boi!
Por aqui poderão os leitores constatar quão preciosa era a posse desse falar que permitiu satisfazer a curiosidade da Tia Etelvina e a colega não intrujir patavina.
Parabéns à Junta de Freguesia de Moreira de Rei que, deste modo, dá a conhecer a riqueza cultural da nossa terra.
Alimentos
| batata | basófia |
| carne | chara |
| carne de porco | chara de grunho |
| pão | casqueiro |
| pão de centeio | moina |
| pão de trigo | artife de brites |
| feijão | carcavel |
| ovo | jote |
| queijo | fromage |
| maça | ventaneira |
| azeite | alâmpio |
| água | ansia |
| vinho | piela, briol |
| água ardente | ansia bombia |
| castanha | carcavosa |
| arroz | graulhante |
| chouriça | torta |
| presunto | bacom |
| fatia de pão | petiz de moina |
| galinha | polha |
| coelho | saltério |
| cabrito | catacismo |
| caldo | broio |
Corpo Humano (órgãos e partes)
| cabeça | motela |
| olhos | abispantes |
| boca | moquideira |
| nariz | cheirante |
| dentes | carrilhanos |
| pernas | andantas |
| mãos | gáveas, manápulas |
| pés | patolas |
| cara | larata |
| Ânus, cú | Cúrrea |
Vestuário
| fato | farpela |
| casaco | véstea |
| calças | pantalonas |
| camisa | lima |
| sapatos | calcorros |
| chapéu | penante |
Adjetivos
| bonito | biroio |
| feio | macanjo |
| bom | bombio |
| alto | granjo |
| baixo | petiz |
| velho | lhego |
Verbos
| comer | soquir |
| dormir | jornir |
| casar, namorar | alternar |
| estar | calmar |
| falar | chalrar |
| compreender | intrujir |
| ir | esguinar |
| querer | crunhir |
Algumas expressões, outros vocabulários substantivos:
| ir-se embora | esguiar-se para farozes |
| (frase injuriosa) | china bebe lucas ao piar da curria |
| não compreender nada | não intrujir patavina |
| pancadas na cabeça | garrotadas na motela |
| padre | raso de altena |
| professora | manua dos gaiatos |
| homem | manez |
| mulher | manua |
| pai | pério |
| mãe | péria |
| filho | gilfo |
| filha | gilfa |
| irmão | irmo |
| pessoa de fora | manez d’ alondres |
| disparate, asneira | macangidade |
| sim | ichmas e bau |
| não | nente boi |
| cigarro | maleque chupante |
| panela | cola |
| janela | ventana |