Moreirinhas é uma das povoações da freguesia de Moreira de Rei cuja pequena dimensão actual contrasta com a riqueza da sua memória. Para os seus naturais, é frequentemente evocada como lugar de regresso, descanso e pertença, uma aldeia pequena no mapa, mas grande na lembrança de quem dela partiu.

A tradição local faz recuar a sua origem a uma antiga região agrícola conhecida por Perlacões, designação que alguns associam a Pedro Lacões, sendo “Lacões” apontado como apelido antigo. Essa memória situa a origem do povoamento num espaço de habitat disperso, ligado à agricultura e à ocupação antiga do território.

Nessa zona são referidos sinais de presença humana remota: sepulturas cavadas na rocha, indícios de antigo cemitério, uma fonte de mergulho com sinais de uso prolongado e pedras com inscrições ou eras gravadas. Estes elementos, ainda que merecedores de estudo próprio, dão consistência à ideia de uma ocupação antiga, anterior à fixação da aldeia no local actual.

Segundo a tradição, a deslocação para a localização presente teria ocorrido por motivos ligados à vida agrícola e à segurança das crianças, havendo a lenda de que, nos antigos campos, as formigas atacavam os mais pequenos enquanto os pais trabalhavam ou assistiam à missa. A explicação prática poderá também estar na aproximação a terrenos mais férteis, à abundância de água e às vias de comunicação.

A antiga ligação entre Mêda e Trancoso, próxima da zona agrícola das Águas Vivas, ajuda a compreender a importância deste território. Ali possuíam parcelas muitos habitantes de A-do-Cavalo, Moreirinhas, Esporões e Moreira de Rei, o que mostra como os campos, os caminhos e a economia agrícola ligavam entre si várias povoações.

Moreirinhas conheceu, entre as décadas de vinte e sessenta do século XX, uma vitalidade humana assinalável. Depois, como tantas aldeias do interior, foi marcada pela emigração para o Brasil, para a Europa e para África. Hoje revive de modo especial nos períodos de regresso dos emigrantes, quando a aldeia volta a ganhar vozes, movimento e presença familiar.

A povoação possui ainda uma inesperada ligação literária. No romance O Retrato de Ricardina, de Camilo Castelo Branco, uma das personagens passa por Moreirinhas numa deslocação entre Viseu e Almeida: “Era nado o sol quando chegaram a Moreirinhas, e ao cair da noite estavam na praça de Almeida.” Esta referência inscreve o nome da aldeia na obra de um dos maiores escritores portugueses.

Pequena na escala, Moreirinhas é grande na memória: pela tradição de Perlacões, pelos sinais de ocupação antiga, pela ligação às Águas Vivas, pela emigração e pela presença inesperada na literatura camiliana.

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