Os registos paroquiais representam um dos mais importantes acervos documentais em suporte electrónico que possuímos para o conhecimento da história das populações da actual paróquia de Moreira de Rei e da antiga Moreirinhas.

Divididos em três grandes fases da vida humana (baptismo, casamento e morte), estes assentos abarcam cerca de três séculos destas e de outras paróquias e freguesias do concelho de Trancoso. Todo este espólio secular e valioso encontra-se actualmente depositado no maior repositório documental do país, a Torre do Tombo (https://tombo.pt/f/tcs24).

Os mais antigos são os registos de óbito que remontam a 1599, provenientes da então Paróquia de Santa Marinha de Moreira de Rei (1599-1747), à época bispado de Viseu e comarca de Pinhel. Na sua maioria são registos mistos, por vezes deteriorados, incompletos ou manchados e a sua leitura carece de alguns conhecimentos paleográficos e linguísticos, mas sobretudo de muita atenção e paciência por parte do leitor. Os mais legíveis, mas nem sempre de fácil leitura, datam de 1649 em diante.

Estas datas podem parecer tardias, porquanto Moreira de Rei surge como um aglomerado populacional antigo, como se deduz pela existência do grande agregado de sepulturas antropomórficas ali existentes. Mas há um outro facto historicamente significativo: a referência documental a Moreira nos Taraucae Monumenta Historica [refª 1254], ou seja, nos livros de doações do mosteiro de Tarouca, fundação atribuída a D. Afonso Henriques logo a seguir à tomada de Trancoso aos sarracenos [Herculano, 512]. Moreira de Rei continuará a crescer ao longo da dinastia afonsina, já com alguma organização socioeconómica e com a provável emergência de redes paroquiais a acompanhar o resto do país. Não obstante, a questão dos registos anteriores a 1599 continua por esclarecer.

Quanto aos registos paroquiais de Moreirinhas, os mais recentes datam de 1817. Sabe-se, contudo, que Moreirinhas pertenceu ao bispado de Pinhel conforme testemunham os registos baptismais, havendo, porém, notícia de que Moreirinhas teria sido elevada a paróquia alguns anos antes, segundo os inquéritos pombalinos de 1758. Com efeito, tais inquéritos fazem referências a três freguesias e a dois curatos, Valdujo e Moreirinhas, que alternariam anualmente entre si: Valdujo sob a invocação de Nossa Senhora, Moreirinhas sob a invocação do Divino Espírito Santo desde tempos muito antigos. Moreirinhas parece, pois, usufruir de um estatuto misto, acolhendo na sua maioria as populações dos lugares e vilas circunvizinhas que pertenciam quer à diocese de Lamego, quer ao bispado de Pinhel, tais como a própria Moreirinhas e Carvalhal, mas também Casteição, Rabaçal ou Prova etc. Isto pode explicar por que razão o espólio dos registos paroquiais de Moreirinhas se encontravam dispersos em três arquivos distintos: Guarda, Pinhel e Lamego.

Os registos paroquias não são textos literários, são textos na generalidade secos, curtos, económicos, mas escrupulosos, pois obedecem a modelos chancelados pela Igreja, paróquias, bispados e dioceses do país. De fácil acesso electrónico, estes documentos, porém, não deixam de constituir uma fonte inesgotável para o conhecimento do universo das populações que habitaram estas paróquias e freguesias a partir do século XVI. Quem somos? Donde vem o nosso apelido? Quem foram os nossos antepassados, progenitores e familiares? Quem foram os seus padrinhos? E se fosse Santo António? Quais foram a suas crenças, ritos e rituais, relações sociais, geográficas, familiares e religiosas? E se alguém quiser reconstituir a sua árvore genealógica?

É de todo esse microcosmo que nos falam, por exemplo, os registos de nascimento, também conhecidos por assentos baptismais. Por outro lado, não deixam de ser um manancial para o conhecimento da história da língua, da ortografia, de toponímias e onomásticas, de glosas, de cultismos, da variedade das caligrafias ou de fórmulas litúrgicas canónicas.

Se alguns destes aspectos podem atrair o estudioso dos campos da linguística, outros há que podem ocupar o imaginário do sociólogo, do teólogo ou mesmo do poeta. Desde aspectos ligados a práticas matrimoniais exogâmicas e ao intercâmbio populacional até a dados de natureza demográfica, as histórias que nos contam os registos de baptismo são ao mesmo tempo felizes e trágicas: felizes porque o nascimento e o baptismo são sempre actos festivos, rituais que renovam a esperança e o próprio fluir dos ciclos da vida neste mundo marcadamente rural e fechado; trágicas porque, não sendo uma constante, também não escondem a dura realidade da morte prematura, da orfandade, dos filhos ilegítimos ou os de pais incógnitos ou desconhecidos.

Mas, obviamente, todo este imenso espólio requer um estudo mais aprofundado e merece ser confrontado com várias outras fontes, nomeadamente com os inquéritos pombalinos de 1758. Esse conhecimento acumulado levar-nos-á, por certo, até a um passado comum não muito distante, mas que pode esclarecer e iluminar o nosso presente enquanto seres históricos, identitários e transitórios.

Doutor Abel N. Pena

Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

(O autor escreve conforme a antiga ortografia portuguesa)

Comments are closed.

Close Search Window
↑